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O estado de S. Paulo, editorial, 18/8
QUEM É O HOMEM?
Gilberto de Mello Kujawski
"Ter que acreditar em Roberto Jefferson é dose". - Salomão Schvartzman
A quadra que atravessamos é de estupor e perplexidade. Seria a ocasião de recomendar aqui a leitura do Guia dos Perplexos, do filósofo judeu Moisés Maimônides, natural da cidade esponhola de Córdoba (século XII). Por sinal, o livro foi escrito em árabe, mostrando - bons tempos - a permeabilidade entre as culturas árabe e judaica na Idade Média.
Poderíamos recordar também Dante Alighieri - "Nel mezzo del camin di nostra vita/ mi ritovai per uma selva oscura/ che la diritta via era smarrita". Esse terceto de abertura da Divina Comédia reflete à perfeição o extravio e a angústia de um páis que também perdeu seu caminho, e já não sabe onde encontrar o seu norte.
Ou Shakespeare: "To be or not to be". Ou, no Macbeth, aqueles versos soberbos em que descreve a vida como uma sombra ambulante, um conto narrado por um nobre louco, "cheio de som e fúria", imagem eloqüente do niilismo, da descrença radical em todos os valores.
Ou ainda poderíamos recorrer a Goethe, na danação de Fausto, aquele que vendeu a alama ao diabo. Alguém por aqui terá vendido a alma ao diabo, a troco de mais poder e de mais dinheiro?
Mas vamos ficar com um poeta nosso, bem brasileiro, Carlos Drummond de Andrade, que escreveu aquele clássico da literatura moderna, que todos conhecem, José: "E agora, José?/..o dia não veio, / o bonde não veio,/ o riso não veio,/ não veio a utopia/...e agora, José?/...sem cavalo preto/ que fuja a galope,/ você marcha, José!/ José, para onde?"
Estamos no olho do furacão. Pisamos um solo minado por escândalos que estouram a cada dia de todo lado. A onda de corrupção assola o país e ameaça subir a rampa do Planalto. Nesse cenário catastrófico, entretanto, o dado positivo, que se sobrepõe a todo o pessimismo e funciona como antíduto nos organismos das instituições contaminadas pelo veneno da dissolução, o dado positivo é a reação firme da sociedade, representada pelas CPIs, pleo Conselho de Ética, pelo Ministério Público, pela Ordem dos Advogados e, sobretudo, pela imprensa, que levantam uma barreira contra a institucionalização da propina que se vem estabelecendo entre nós. Este é o sinal de que nem tudo está perdido.
Na verdade, o significado das CPIs e do Conselho de Ética, com toda aquela efervescência mostrada no vídeo, muito mais do que o gosto pelo palanque, denuncia que, finalmente, após um longo e tenebroso inverno, os políticos recuperam sua capacidade operacional e a política volta a ser uma força decisiva nos destinos da sociedade. Como foi dito no último artigo, o Pt, com a ocupação do aparelho do governo e a compra de apoio de outros partidos, aniquilou, virtualmente, a oposição e paralisou no país o jogo político normal, que não existe sem uma oposição de fato e sem a necessária liberdade de movimentos de seus participantes. Tolhidos pela camisa de força da burocracia politizada e da cooptação a troco de dinheiro, essa liberdade de movimentos dos atores políticos foi abafada. Pois bem, nossa tese é que nas CPIs, com todas as críticas que possam merecer, a política voltou com tudo, a política como instância de representação da sociedade e como força decisiva no rumo das coisas.
A partir do depoimento de Duda Mendonça à CPI dos Correios, o ritmo dos acontecimentos se acelera incontrolavelmente. A desbochada palavra "pizza" já foi substituída por essa palavra maldita que entrou em circulação: impeachment. O estopim da bomba foi aceso. "Point of no return?". Haverá tempo de desarmar a bomba?
Com todo o movimento de reação ao descalabro nacional, que não se limita às CPIs nem aos órgãos encarregados de fiscalizar o cumprimento da lei, como o Ministério Público, novas lideranças políticas se afirmam, algumas com idéias de extraordinária fertilidade, como a que foi exposta na imprensa pelo governador do Rio Grande do Sul, Dermano Rigotto. Sua propsto é conceder poder constituinte ao próximo Congresso, a ser eleito em 2006, a fim de assegurar as três grandes reformas indispensáveis para pôr o Estado em forma: a reforma política, a fiscal e a previdenciária.
Entre as velhas lideranças, algumas delas assombram o eleitorado consciente, pelo potencial de populismo e demagogia que carregam: Cesár Maia e GArotinho. Outras ou se dizem desinteressadas em assumir o lugar de Lula em 2006 (FHC, por exemplo) ou estão absorvidas por outras responsabilidades (como José Serra).
Quem será o homem destinado a presidir o Brasil em 2006? Seu perfil já está desenhado: integridade acima de qualquer suspeita, cabeça fria em meio ao furacão, capacidade de traçar um plano estratégico e pulso firme para executá-lo. Será que algum político conhecido reúne tais predicados?
Noticiou a imprensa que certo governador mais o assessor subiam para o gabinete quando o elevador do palácio enguiçou. O conserto ia demorar. O assessor estava carregado de papéis para despachar. Crente que o serviço ficaria para o dia seguinte, qual não foi sua surpresa quando o governador lhe disse: "Bom, vamos fazer o seguinte: sente comigo aqui no chão, coloque os paéis no foco da luz de emergênia, me dê uma caneta e vamos começar!" (Folha de S.Paulo, Contraponto, 4/8). Pelo dedo se conhece o gigante. Num momento aflitivo, em que as pessoas ficam desamparadas, sem saber o que fazer, o governador,s em pavor, sem neurose, sem alarde, deu a sua medida, mostrando-se senhor absoluto da situação. Passou segurança, tranquilidade e senso agudo do dever. Impavidez, bela palavra clássica, sinônimo de destemor. Demonstrou ser um político talhado para controlar qualquer crise, ao contrário do nosso presidente Lula, que fala pelos cotovelos, debate-se como ave ferida, e está cada vez mais desorientado.
O nome daquele governador? Geraldo Alckmin. Esse é o homem.
Gilberto de mello Kujawski, escritor e jornalista, publicou A Identidade Nacional e Outros Ensaios (Funpec). E-mail: gmkuj@terra.com.br
...PORQUE EU TAMBÉM ACREDITO QUE O GERALDO ALCKMIN É "O CARA"!!!!
Adorei esse artigo e decidi por colocá-lo aqui. Ia fazer isso fds passado, mas como o PC foi pro conserto, não deu. Gostaria muito que vocês comentassem a respeito dele...Mas se for pra escrever "Ahhh, mto grande, tô com preguiça!" ou "Não li nada!", não comenta!
O assunto...é sério.
Escrito por Mari!=P às 16h38
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